| Vereadora Fátima discursando |
Fátima Salume esteve no memorial em São Paulo, que retrata os dramas vivenciados pelo mineiro de Campo Belo, na época da Ditadura Militar.
Por: Kelly Cristina
A vereadora Fátima Salume Mati/PT participou de um evento indescritível. Ela representou a Câmara Municipal de Campo Belo em São Paulo, no memorial onde a família de Eduardo Leite (Bacuri), teve o reconhecimento da nacional pela causa que sempre defendeu: um país democrático. O militante enfrentou a “Era de Chumbo” e pagou com a própria vida, a liberdade de expressão, que hoje, a imprensa e o cidadão brasileiro, podem desfrutar.
A história de “Bacuri” se tornou pública e pode ser conhecida em detalhes com a leitura da biografia. “Eduardo Leite Bacuri”, de autoria da jornalista Vanessa Gonçalves, que foi lançada oficialmente no último sábado (18), pela Plena Editorial. O livro “Luz” retrata a intensa vida do mineiro de Campo Belo, de origem simples que desapareceu nos porões do regime militar aos 25 anos de idade. O caso foi considerado a mais longa tortura militar. Foram 109 dias de sofrimento, antes da sua execução. Segundo um soldado, ele faleceu em 08 de dezembro de 1970.
| Denise esposa do Bacuri |
| Fatima e Familiares do Ex-militante |
Para a vereadora Fátima, que discursou para uma imensa plateia, o lançamento da obra literária é um justo reconhecimento a quem teve a coragem de lutar. “Ele é exemplo. Se hoje temos um país Democrático de Direito é porque alguém teve a coragem de lutar por um mundo mais justo”, interpretou a vereadora.
Conheça detalhes da Prisão de “Bacuri” e os momentos trágicos vivenciados pela esposa, e retratados na Obra de Vanessa Gonçalves.
Cercada por quatro policiais, de olhos vendados, foi empurrada para dentro de um automóvel. Poucos minutos depois, o carro parou. Puxada com força para fora, Denise ouviu um portão abrindo, entrou na casa, passou por uma porta e subiu a escada. Em seguida, os algozes giraram seu corpo várias vezes e só depois retiraram a venda. “Você sabe quem sou?”, perguntou o homem postado diante dela. Denise respondeu que não. “Sou o famoso Fleury”, respondeu o delegado Sérgio Paranhos Fleury, torturador obstinado e com um histórico de morte de prisioneiros sob seus ombros. Ele então apontou uma porta e deu uma ordem: “Seu marido está naquela sala”, disse. “Entra lá porque ele se recusa a comer e falar antes de te ver. Você tem um minuto.” Denise viu o marido, o militante de esquerda Eduardo Leite, conhecido como Bacuri, sentado atrás de uma escrivaninha e com as mãos algemadas em cima da mesa. As lágrimas vieram de imediato. Bacuri tinha hematomas e queimaduras por toda a pele. Tocaram-se as mãos e, quando Denise se levantou para que ele sentisse o bebê na barriga, Fleury entrou: “O minuto acabou”, disse o delegado. Arrancada da sala, Denise pressentiu que aquela seria a última vez que veria o marido, prisioneiro que permaneceu mais tempo sob tortura ininterrupta da ditadura militar – foram intermináveis 109 dias de sofrimento antes de sua execução. O encontro de Denise e Bacuri foi registrado em agosto de 1970.
No Dops, Bacuri passou por uma experiência incomum – e macabra – mesmo para os padrões da ditadura. Ali, depois de massacrado fisicamente, ele leu sua sentença de morte. No sábado, 26 de outubro, os jornais noticiaram a morte de Joaquim Câmara Ferreira, militante da Ação Libertadora Nacional, e afirmaram que Bacuri havia sido levado da prisão para fazer o reconhecimento do corpo. Nessa operação, segundo as publicações da época, Bacuri tinha conseguido fugir e desapareceu. Ao ver a notícia impressa nos jornais, ele teve a certeza de que jamais sairia vivo da prisão – era o álibi que os militares precisavam para assegurar que Bacuri não estava sob jugo da ditadura e, sim, foragido. A triste ironia da história é que ele sequer andava. Graças à violência dos policiais, apenas quatro dias depois de ser preso o militante perderia para sempre o movimento das pernas. Sua morte foi lenta. Segundo relato de um soldado, Bacuri foi executado no dia 8 de dezembro de 1970

